Sobre os órgãos de tubos - I

Por Júlio Amstalden

No domingo passado, 04/05/2014, o jornal "Correio Popular" de Campinas publicou uma matéria sobre os órgãos de tubos da cidade, que atualmente conta com apenas três instrumentos desse tipo. Estão instalados na Catedral Metropolitana, na Basílica Nossa Senhora do Carmo e na Capela do Colégio Ave-Maria. Desses três, o que se encontra em melhor estado de conservação e em plena utilização é o instrumento da Basílica do Carmo. Os outros dois não são utilizados.

Dois outros órgãos de tubos existiram no passado em Campinas: um na Igreja do Sagrado Coração de Jesus (próxima à antiga rodoviária) e outro na capela do Externato São João. Quando ainda estudante, no início dos anos 1990, cheguei a conhecer a capela do Externato São João, hoje desativada e transformada em salão de reuniões. Era uma construção sólida e muito bonita, com vários vitrais. O órgão estava instalado sobre a porta de entrada e possuía uma bela fachada. Além do órgão, a capela possuía ainda um grande piano de armário, com móvel todo esculpido e candelabros, bem como um grande harmônio provido com uma pedaleira (teclado para os pés). Harmônio era um tipo de órgão, mas sem os tubos, criado no século XIX como alternativa aos altos custos dos similares tubulares. Normalmente, os harmônios possuíam apenas um teclado e apenas os modelos mais caros possuíam dois, além de pedaleira. O exemplar da capela do Externato era desse tipo. Tanto o órgão da Igreja Sagrado Coração de Jesus quanto o do Externato São João foram desmontados.

Órgãos nunca foram instrumentos baratos. O preço depende de seu tamanho, mas de qualquer forma chega a equiparar-se ao valor de um imóvel de bom padrão. O alto custo sempre foi um fator limitador para que as comunidades religiosas pudessem prover seus templos de um órgão de tubos, cuja aquisição era obrigatória segundo as normas litúrgicas pré-conciliares, pois os órgãos eram os únicos instrumentos musicais admitidos pela Igreja Católica até então. As comunidades que não tivessem recursos para tal poderiam ter harmônios, instrumentos mais baratos e "tolerados".

Nesse contexto, é interessante observar-se que a maioria dos órgãos de tubos instalados no Brasil o foram durantes os ciclos econômicos mais generosos, que possibilitavam que o excedente de dinheiro circulante pudesse ser aplicado em bens materiais ligados à religião ou a outro aspecto da vida pública. O Ciclo do Ouro possibilitou a instalação de órgãos em Minas Gerais, dos quais poucos exemplares restaram até hoje. O Ciclo do Café trouxe os órgãos para São Paulo, interior e capital, a partir da segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX, quando iniciou-se a industrialização do país. Os órgãos de Campinas e região pertencem a esse período.

Durante o Ciclo do Café, os órgãos eram importados da Europa, principalmente da Alemanha, França e Itália, ou então construídos aqui por profissionais estrangeiros que se estabeleceram no país com essa finalidade.

Em artigos posteriores, um pouco da vida desses profissionais e de seu trabalho serão objeto dos artigos do blog, bem como um pouco da discussão sobre o papel e atual estado dos órgãos nas liturgias brasileiras será apresentada.

(Foto: órgão da "Igreja dos Frades", Piracicaba, por Bia Vasconcellos. Construído em 1945 por Carlos Möhrle)