Sobre os órgãos de tubos - III

Por Júlio Amstalden

O texto de hoje é dedicado ao organeiro alemão Guilherme Berner. Berner nasceu em 1907 na cidade de Kennenburg, distrito de Esslingen, Alemanha. Teve a sua formação em firmas alemãs de construção de órgãos e harmônios, como Schaeufelle, Steinmeyer e Gebruder Jemlich. Aos 18 anos partiu para a Espanha, a fim de aperfeiçoar-se.

Veio para o Brasil em 1930 para construir o órgão do Convento Santo Antônio, no Rio de Janeiro, dos frades franciscanos, ocasião em que associou-se a Carlos Möhrle. A sociedade não durou por muito tempo, partindo Möhrle para São Paulo e permanecendo Berner no Rio de Janeiro. Casou-se com Theresia Pashing, austríaca 12 anos mais jovem que ele e juntos tiveram três crianças.

Nesta cidade, Berner fundou uma firma especializada na construção de órgãos de tubos, a qual batizou de Santa Cecília. Todas as partes dos instrumentos, como foles, someiros, teclados e tubos, eram produzidas pela própria firma. Foi considerada a primeira firma brasileira de construção de órgãos e que, segundo uma tendência da época, chegou a ter um catálogo com vários modelos possíveis de instrumento, padronizando a produção. Assim, oferecia desde pequenos instrumentos (chamados por Berner de "Mignons") até grandes órgãos, com mais de dois teclados. Muitos dos órgãos existentes no sudeste brasileiro foram produzidos pela firma Santa Cecília, sendo que boa parte deles encontra-se no estado do Rio de Janeiro, mas podem ser encontrados também no estado de São Paulo.

A Catedral de Piracicaba possui um órgão Berner, originalmente construído para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Santos. Esta igreja precisou ser demolida, porque um gasoduto da refinaria de Cubatão explodiu nas proximidades, fazendo com que as fundações do templo fossem abaladas. Antes da demolição, todos os pertences da igreja foram vendidos. Na época, no ano de 1967, o novo edifício da Catedral de Piracicaba estava sendo terminado e necessitava de um órgão. Assim, o prefeito de Piracicaba, Luciano Guidotti, junto com o bispo diocesano, D. Aniger Melillo, compraram o órgão Berner, também como parte das comemorações dos 200 anos da cidade,

Um trágico acidente veio marcar o destino da Santa Cecília e da vida de Berner. Seus funcionários costumavam atirar bolinhas de papel em cima do telhado de um dos barracões e Berner, no ano de 1947, já quase com 40 anos, subiu ao telhado para limpá-lo, mas veio a cair e fraturar duas vértebras. Ficou então imobilizado por anos, todo engessado, sobre uma cama, e não pode mais trabalhar. Como se isso não bastasse, sua esposa o abandonou com seus três filhos, com três, quatro e sete anos de idade. Tudo isso faz com que o negócio comece a afundar e a firma Santa Cecília foi à falência. A saúde de Berner foi deteriorando-se até seu falecimento, em 1954, em Petrópolis.


Órgão Berner da Catedral de Petrópolis - RJ